Acabou chorare: mas hoje o Brasil chora a morte de Moraes Moreira

O cantor e compositor faleceu durante o sono, vítima de um infarto agudo

O cantor e compositor Antônio Carlos Moreira Pires morreu na manhã do dia 13 de abril, no Rio de Janeiro, aos 72 anos. O músico morreu em casa, enquanto dormia. Segundo informações da assessoria divulgadas à imprensa, ele sofreu um infarto agudo do miocárdio.
Conhecido como Moraes Moreira, o artista fez parte dos Novos Baianos entre 1969 e 1975. Ao lado de Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, gravou um dos discos mais importantes do país: Acabou Chorare, de 1972. Depois disso, Moraes partiu para a carreira solo, lançando mais de 20 discos. Além disso, Moraes é considerado o primeiro artista a cantar num trio elétrico, junto com o Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar.
Nascido em Ituaçu, em 8 de julho de 1947, o baiano deixa dois filhos, o também músico Davi Moraes e Maria Cecília. Nos últimos anos, Davi fez diversas apresentações ao lado do pai. Para 2020, Moraes e o filho estavam com um show confirmado no festival Tum Sound Festival, em Florianópolis. Há meses a produtora Tum Cult queria trazer uma apresentação do músico à cidade.

Davi Moreira em participação no show do pai Moraes Moreira. Foto: Divulgação

Fica aqui uma das suas últimas obras: um cordel, escrito durante a quarentena, no mês passado. A letra é a última postagem do compositor no Instragram.

Quarentena (Moraes Moreira)


“Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida
Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mais atenção
O sentimento é profundo
Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga

O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito
De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estrupo
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia
Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido
Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta
Com tanta coisa inda cismo….
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia
As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres
O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade”


Moraes Moreira marcou a MPB, o carnaval e a vida dos brasileiros. Para a sua arte: a eternidade.