A era do rádio, do analógico ao digital

Entrevistamos Porã Bernardes, o novo Head das Rádios da Rede NSC em Santa Catarina.

O Jornalista Porã Bernardes se mudou de Porto Alegre para Florianópolis recentemente, com a missão de assumir a liderança das rádios da empresa NSC, em Santa Catarina. Além de manter a participação diária no Programa Pretinho Básico, da Rede Atlântida, Porã agora tem a missão de acelerar a transformação digital, revisitar o posicionamento estratégico e ampliar a conexão com o mercado das rádios CBN Diário, Itapema, Rádio Globo Joinville e Atlântida. Ele conta pra gente como foi essa transição, paralelamente as transformações que aconteceram no mundo do rádio, do analógico ao digital, antes e pós-pandemia.

TUM CULT – Você é uma pessoa que tem uma trajetória incrível no meio radiofônico e musical, tanto que assumiu recentemente a função de Head de Rádios da Rede NSC. O que mudou nesse ramo, desde quando você começou, para o momento atual?

PORÃ – Eu estou no rádio desde 1992, passei por diversas emissoras: Ipanema, Pop Rock, Atlântida, Unisinos FM (onde eu fui diretor), e agora estou assumindo aqui as rádios da NSC em Floripa. Mudou muita coisa. Primeiro nos anos 90, tinha a entrada do CD no estúdio. E os vinis saindo do estúdio. Os cartuchos saindo, e entrando os disquetes. Então a operação de rádio mudou muito. Eu costumo dizer que naquela época, pra ir ao banheiro, precisava botar um “Faroeste Caboclo” da Legião Urbana pra tocar, caso contrário, eu não conseguia me ausentar do estúdio. Talvez até por isso essa música tenha feito tanto sucesso. Mas enfim mudou muita coisa. Mas acho que sempre que surge uma nova tecnologia, tentam matar o rádio. Desde que surgiu a TV, falam que o rádio vai morrer. Surgiu a internet, dizem que o rádio vai morrer, mas o rádio só se fortalece. Mas deve se ter uma estratégia para que esse rádio se fortaleça pois muitas emissoras ficaram pelo meio do caminho. Com a ruptura digital, com um outro tipo de consumidor de mídia, o rádio hoje tem que estar online com perspectivas também de muitas plataformas digitais, senão, não vai funcionar. Então todas as empresas, todas as rádios que conseguiram potencializar o seu conteúdo numa perspectiva de rádio expandido, um rádio que se espalha pela internet, cresceram. Já outras emissoras, que não fizeram esse movimento, estão passando por dificuldades.

TUM CULT – Com a chegada da pandemia, as pessoas ficaram mais em casa, isso impactou de alguma forma no seu trabalho como radialista?

Porã Bernardes, Head de Rádios @nsc.comunicacao, apresentador do @pretinhobasico na @rede_atlantida e louco por vinis @supervinilpora.

PORÃ – A pandemia impactou totalmente o nosso trabalho no rádio. Eu faço um programa que é o Pretinho Básico há muitos anos, e ali são seis pessoas dentro do mesmo estúdio. O quê aconteceu com a pandemia? Todos nós fomos para as nossas casas, fazer os programas das nossas casas. Todos nós tivemos que nos reinventar. As transmissões de vídeo e áudio tiveram que ter uma dinâmica diferente, pois passamos a atuar com delay. Não estamos mais olhando o olho um do outro. Então muda bastante a nossa atuação no rádio, porque não estamos todos juntos no mesmo estúdio. Porém dá essa nova visão, que podemos trabalhar de casa, e que podemos fazer isso com excelência. Melhorando a tecnologia e melhorando os processos, conseguimos entregar um produto de qualidade, mesmo não estando todos dentro de um estúdio de rádio. O operador de áudio tem que estar lá, o operador de vídeo tem que estar lá, mas os apresentadores do programa não necessariamente precisam estar mais nos estúdios das rádios na hora do programa. Então isso é ótimo. Tem muitos programas que eu faço de casa hoje em dia, e esse movimento me fez vir para a beira da praia, me fez vir para Floripa, e me fez encontrar a vida que eu sempre quis. Na verdade, morando próximo do mar, e fazendo o que eu gosto, o que eu sei fazer.


TUM CULT – Você é um colecionador de vinis, vive essa cultura no dia a dia, qual a diferença de ouvir um vinil e um mp3?

PORÃ – Eu sou colecionador de vinil há muito tempo. Desde os meus 14-15 anos, eu sempre pedia discos pro meu Pai e pra a minha Mãe de presente. Até quando os discos eram vendidos em supermercados. Ia fazer o rancho, e aí eu chegava lá e pedia pra me dar um disco, uma fita. Desde essa época eu tenho muita paixão pelo disco de vinil. Naquela época também, quando não existia o MP3, a gente não tinha tanto acesso à informação. Era necessário estar nas lojas de discos pra entender de música, ou ouvir uma rádio especializada pra saber de música. Nessa época se aprendia também muito sobre música, lendo os encartes dos discos, lendo as fichas técnicas. Muito do que eu aprendi de música foi lendo discos e ouvindo, é claro. Era muito legal essa troca de ir para lojas de discos, e conversar com as pessoas, de ter o vendedor que já sabia o que tinha, o que tu gostava, e te indicava coisas. Tinha todo um ecossistema vivo, que hoje em dia ele voltou a existir, muito por causa dos DJs, muito por causa de colecionadores, muito por causa de uma nova geração que nunca teve contato com a música física, que já pegou a música na nuvem. Eu acho o maior barato estar pegando a música novamente, porque o vinil tem essa coisa da experiência, essa coisa tátil, essa coisa da foto do encarte. Além do som ser infinitamente melhor, do que o som do MP3 ou do streaming. E a experiência também é muito mais agradável. Tú bota um disco, deixa rolar, vira um lado, bota de novo, troca o disco… é muito bacana.


TUM CULT – Com a pausa no setor de eventos em função da pandemia, o mercado musical passa por uma mudança drástica e inesperada, o Planeta Atlântida por exemplo, foi cancelado este ano… De que forma você vê isso afetando o negócio das rádios no sul do Brasil?

PORÃ – A falta dos eventos afeta e muito o nosso trabalho como rádio, porque o rádio tem esse braço promocional que é fazendo eventos. Entramos em contato com o público fazendo eventos, promovendo shows, apoiando a cena cultural local. Então isso é uma parte do nosso ecossistema de rádio, de música. Os eventos são uma parte importante de receita para as rádios. Então afetou muito. Algumas coisas, a gente conseguiu fazer em formato digital, mas não é a mesma coisa. O setor como um todo, principalmente os músicos, o pessoal que trabalha no suporte, os técnicos de som, os roadies, os técnicos de luz… Esse pessoal tá extremamente impactado pela pandemia. Deveria existir um projeto de retomada, ou de apoio a esse setor, porque está realmente muito difícil. Nós das rádios sentimos também, as receitas caíram pros veículos de comunicação. Mas a minha preocupação maior é: como retomar isso? Como vamos conseguir? E se a pandemia durar mais um ano por exemplo, como sustentar essas pessoas? Como é que se faz para criar oportunidades novas e novos jeitos de ter experiências musicais, sem aglomeração, com remuneração para músicos, artistas e equipes técnicas….enfim, acho que é um problema de todos nós. De todo o setor criativo, de entender que a gente precisa estar preparado para que a pandemia possa durar mais. Temos muitas expectativas de vacinas, mas não vai ser asssim, de retomar de uma hora para outra. Acredito que pelo menos até o final de 2021, tudo continue de uma forma muito mais online, do que presencial.


TUM CULT – A convergência de mídias é uma realidade, mas mesmo assim, muitas vezes um artista faz muito sucesso nas redes sociais mas não emplaca nas rádios e na TV. Qual dica você daria para um artista em ascensão conquistar espaço dentro de uma grande rede de comunicação como a que você trabalha?

PORÃ – Eu acho que o legal desse momento, é que os artistas ficaram mais independentes de tocar em rádio. Os artistas formam o seu próprio público na internet, nas suas redes sociais, utilizando os canais próprios. Isso está acontecendo já há um bom tempo. Tem artistas que fazem sucesso, têm uma abrangência, uma relevância interessante e eles não estão tocando nas rádios. E acho esse ponto é bem importante, de poder criar o seu público mesmo sem depender de uma grande emissora de rádio. Agora, claro que quando chega numa Rede Atlântida da vida, numa grande rede de rádios, esse artista vai reverberar mais, ele vai ter mais alcance. As pessoas vão consumi-lo ao mesmo tempo, e vão sentir emoções parecidas ao mesmo tempo. Então esse é o poder do rádio, conectar as pessoas ao mesmo tempo, numa mesma emoção. E em relação a isso, realmente as rádios têm arriscado pouco, pois o mercado está cada vez mais competitivo, e acaba que muitas vezes não sobra espaço para tocar o artista mais novo. Mas o certo é que a gente tem que criar esses caminhos, e acredito também, até relacionando com a pergunta anterior sobre a questão dos eventos, eu acredito que nessa retomada, as rádios vão precisar muito de artistas locais, muito de artistas novos para fazer seus eventos, porque realmente a gente vai começar um novo tempo, com menos dinheiro. E aí, vai ser muito necessário que se crie um ecossistema hiper local, para que os eventos aconteçam, e que as cenas locais sejam mais valorizadas. Acho que tem um caminho bom para isso. Mas realmente a dica é sempre fazer público, ir tocar no barzinho e ir tocar no estádio. Entender alguma coisa de sempre estar em contato direto com o público. O público vai reverberar e vai conseguir chegar, e o artista, vai conseguir chegar nas grandes rádios, a partir desse sucesso, que ele já tem com o seu público. Essa perspectiva de lançamento de artista mudou bastante nos últimos anos. Muitas vezes as rádios eram as plataformas de lançamento, e hoje as rádios na maioria das vezes não são a plataforma de lançamento dos artistas novos. Então tem uma relação aí, que o artista mais esperto, ele vai saber se apropriar melhor, e conseguir atuar tanto no mainstream, quanto no seu nicho.