Sabores musicais em família

Conversamos sobre criatividade com Vanessa Longoni e seu filho Carlo @Gunkahbeats.

Tanto a música quanto a culinária, são formas de se expressar e provocar sentimentos. Vanessa Longoni tem um talento incrível tanto para sons, quanto para sabores. Ela é uma artista de muitas faces, que em muitos momentos mistura nossos sentidos. Ela diz: “A vida é uma sinestesia. Tudo se cruza o tempo todo, atravessa. Somos atravessados por muitas sensações e situações e somos muitas coisas. Por que razão deveríamos de nos separar? Nos separaram, nos fragmentaram para que  fôssemos  funcionais nessa cadeia produtiva capitalista, mas eu quero mais é misturar e borrar tudo. A mistura não se restringe apenas à música e culinária, vai além. Misturam todas as minhas experiências: cantora, produtora cultural, cozinheira e educadora…mas ok…o que une é a criatividade.”

Receitas e Trilhas da Pandemia  – As mudanças em função da pandemia afetaram o mundo todo, em especial os segmentos de eventos e gastronomia. Por isso perguntei a ela quais tem sido as trilhas e as receitas que a embalaram neste momento insólito. “A pandemia é um aprendizado constante de se entender nesse mundo instável. Cada um vai criando o seu jeito. Uns ficam bem , outros não. Penso que o mais importante é se respeitar. Ser amoroso consigo , ou pelo menos tentar. Na real o mundo nunca foi estável, isso de estabilidade sempre foi muito uma ilusão, mas fato que não tínhamos esse elemento surpresa e mortal na nossa frente. A pandemia é lidar com a morte o tempo todo. Morte emocional, morte física, ver os descasos que sempre existiram, ver a política mais podre do que sempre foi. Mas há que tomar partido, se rever…. Mas também sempre deixo espaço pra poesia. Criei espaços de escuta, grupos afetivos que me identifico e criei Playlists coletivas, então a trilha para a pandemia ela é múltipla, pandêmica, ativa. Não quero me entorpecer com 1 só gênero musical, nem julgar, quero estar presente. E construir escutas que desviem os ouvidos do normativo.            

Receitas e notas musicais de geração em geração – Assim como receitas gastronômicas fazem parte da nossa cultura e vão passando de geração em geração, aparentemente a música também segue o mesmo caminho. E recentemente o filho dela, conhecido nas redes como Carlo @gunkahbeats, está seguindo os passos da Mãe. O Carlo sempre me põe a pensar, quando ele nasceu pensei: que mundo esse cara vai receber? Como ele vai ser nesse mundo? E agora ele, com 21 anos, numa pandemia, mas criando suas estratégias, seus jeitos. Sendo criativo, artista, lançando trabalhos virtualmente. E essa é a pegada mais bacana, o cara nasceu com a tecnologia (mas ainda com uma nesga de analógico que pra mim, ainda bem, traz toda a graça, traz a necessidade do outro). O Carlo produz o seu trabalho, tem as ferramentas (a sorte e privilégio de tê-las, sabemos), esse “novo” (porque sabemos que não é novo não é? Éramos nós que resistíamos em ser analógicos, rsrsr) não o assusta, logo isso é um facilitador, mas o mercado continua cruel como sempre foi, então essa dificuldade (em conseguir visibilidade), penso, ainda é igual. Ainda existe uma fórmula que  precisa ser desconstruída para que a arte e a expressão de cada artista se manifeste e seja aceita e consumida. Afinal, precisamos ser consumidos, mas pelo o que somos e não pelo engessamento e construção restrita de subjetividades. Mesmo assim vejo que ainda é bom fazer um show ao vivo, com muita gente aglomerada…e isso eu não sei como  ele viverá. E então, volto lá pra pergunta que me fiz quando ele nasceu…”.

Uma artista multitask – Ela já trabalhou com produtores renomados como Gastão Villeroy, Antônio Villeroy, Arthur de Faria e Marcelo Corsetti. Ganhou prêmios nacionais e internacionais, e agora está envolvida em um projeto voltado para o público infantil. “Eu além de cantora e produtora cultural, sou pedagoga e psicopedagoga, sempre estive envolvida com a educação. Tive um Centro Cultural em Porto Alegre, o El Patio,  e criei , juntamente com outras colegas: Claudia Braga, Nisi Franklin e Adriana Feyh, uma escola de música com o foco na educação, saúde e cultura (assunto esse sempre atual). A Casa Elétrica existe até hoje, já são 16 anos nessa estrada e muito bem direcionado pela Claudia Braga, grande parceira de projetos artísticos e educacionais. Fiquei um pouco afastada em função de outras atividades culturais, a produção de meus cds (gravei um cd infantil também: o ” Queremos uma ciclovia” uma produção que envolveu mais 2 países: Uruguai e Espanha, é um cd lindo, bilíngue, produzido por outro grande parceiro Marcelo Corsetti), shows e outros projetos,  mas nunca perdi o foco na educação. Meu trabalho artístico é muito consciente nesse aspecto. Hoje retorno para a Casa Elétrica trazendo mais um assunto: as poéticas familiares e a arte como catalisadora dessas poéticas. 

Lançar um novo projeto em casa – Conversamos também com Carlo @gunkahbeats, filho de Vanessa, que contou pra gente como foi iniciar um projeto em uma época em que não estavam acontecendo eventos presenciais, a mídia totalmente focada no jornalismo factual. “Foi um processo complicado, mas foi muito bom pra focar na produção, então todos os dias eu postava algo no Instagram, nos stories e fazia lives enquanto produzia, assim consegui conversar com um público novo e mostrar pra amigos meus projetos na música!”.

Ele conta que a faixa “My Pills” foi o primeiro single lançado junto com os amigos Dezzin e Lebralk, e foi produzida 100% a distância. “Eles me mandavam uma referência, fiz o beat e pouco tempo depois já tinham a letra pronta. Foi difícil no começo alinhar as ideias de cada um, nesse novo jeito de produzir (tudo online). Mas pouco tempo depois, já nos acostumamos e finalizamos a música. Foi uma experiência nova, mas não se compara com uma sessão de estúdio juntos.”

E qual é a receita pra quem quer produzir em casa?  “A melhor dica pra quem quer começar na produção musical é estudando, e o Youtube tá cheio de produtores incríveis! Começar pelo básico, ver em qual DAW (programa) você se sente melhor e aprender a usar na prática, tentando, errando e acertando! Depois, uma forma muito boa de evoluir é fazendo remakes dos seus beats favoritos! Outra dica importante é ter paciência, não vai ser da noite pro dia que você vai aprender, mas o esforço sempre será recompensado”.